Crime: A Casa de Cartas de Stanley Ho
Parte II
Noted & Quoted in: Voz Lusitana, pg. 8
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Voz Lusitana |
No Canada, ele tem sido banqueteado e dado medalhas por poderosos tais quais Jean Chretien, Brian Mulroney e diversos lideres do governo da British Columbia.
O ex-presidente Bill Clinton, o presidente deposto das Filipinas, Joseph Estrada, a ex-primeira ministra britanica Margaret Thatcher e o todo poderoso Jiang Zemin, da China, sao somente alguns dos nomes que ocupam a caixa de cartoes de visitas de Ho.
O bilionario Stanley Ho e proprietario da mansao mais feia de Vancouver, localizada na entrada do Stanely Park, enquanto que os seus interesses financeiros se espalham de costa a costa.
Ho, de 83 anos de idade, tem 3 esposas e 17 filhos. Os seus empregados o descrevem como sendo "um comerciante internacional muitissimo respeitado".
Contudo ha um lado escuro na vida desse magnata do casino, lado esse cuidadosamente anotado pelos servicos secretos de inteligencia de paises tais quais Canada, Estados Unidos e Australia.
A informacao contida nos arquivos da inteligencia internacional declara que as operacoes do "rei" Stanley Ho estao ligadas ao crime organizado asiatico--essas declaracoes sao contudo veementemente negadas pelo Sr. Ho e os seus amigos da alta.
Um documento da RCMP (Royal Canadian Mounted Police) intitulado "Crime Organizado Asiatico", tem listado Ho como um lider de Triad, enquanto que um documento semelhante da inteligencia americana tem-no denominado pessoa pra manter sob observacao.
Apesar disso, todas as alegacoes de coneccoes criminais sao consideradas insuficientes e Ho continua construindo um imperio global sem qualquer preocupacao e muita influencia.
Agora, contudo, uma investigacao pela revista Far Eastern Economic Review mostra que as suspeitas policiais sobre as actividades de Ho nao eram assim tao sem fundamento.
Uma reportagem escrita pelo conhecido escritor Barry Wain insinua que o coracao do imperio financeiro de Ho, a multibilionaria operacao batizada de Sociedade de Turismo e Diversoes de Macau (STDM) e suspeita de ocupar o centro da lavagem de dinheiro, movendo bilhoes de dolares pra fora da China e atraves de Macau, entrando na economia de Hong Kong.
Parte do dinheiro "lavado" ja conseguiu se transferir para os bancos e casinos da British Columbia.
Um promotor em Hong Kong que e responsavel por investigar um escandalo no Banco da China, disse que US$ 1.4 milhao dum total de US$26.5 milhoes, resultantes duma possivel fraude cometida por um ex-gerente do banco, foi transferida do pais atraves dum cheque da STDM.
Alega-se que o dinheiro foi levado por Hui Chiu Fan o qual com dois outros cumplices entraram no Canada por Vancouver, usando identidades falsas.
O trio de bancarios fugitivos depositou largas somas em contas no Royal Bank, na agencia de Ackroyd Road em Richmond e em agencias da Hongkong Shanghai Banking Corporation e do Canadian Imperial Bank of Commerce localizadas na area da grande Vancouver.
A policia de Hong Kong disse que o cheque da STDM de propriedade de Hui era semelhante a um desses cheques pagos pelo casino aos ganhadores e, portanto nao levantou suspeitas quando do deposito bancario.
Durante a investigacao a policia de Hong Kong entrevistou um gerente do casino em Macau, o qual disse que o dinheiro foi entregue por um dos operadores do casino, um desses gerentes de salas VIP (Very Important People, ou pessoas endinheiradas). Ele, contudo, nao possuia nenhum documento interno que comprovasse nada.
Policiais em Vancouver, seguindo Hui e seus cumplices, viram-nos numa casa em Richmond, dois anos atras. A casa fora usada para armazenar plantas de maconha por criminosos, no passado. Mais tarde a policia recebeu informacao de que o trio estava escondido numa area fora de Hollywood, na California.
No passado mes de abril, um dos tres, Yu Zhendong de 41 anos de idade foi aprisionado e, entregue as autoridades chinesas sob condicoes de que ele nao fosse torturado nem condenado a morte. Yu foi preso no estado de Nevada onde parte do dinheiro que se alega ter sido roubado, estava sendo lavado atraves dos casinos locais. Os outros dois continuam foragidos.
O Review disse ter enviado um time de jornalistas a Zhunhai, uma cidade situada na fronteira chinesa, perto de Macau, onde eles depositaram o equivalente a US$12,900 (HK$100,620) com o dono duma lojinha situada num grande Shopping Center chamado de Frontier Square. Mais do que 100 chefes de jogo estavam prontos pra trocar dinheiro no local ou enviar a Macau.
Os jornalistas do Review pagaram US$232 ao dono da lojinha para transferir a quantia desejada.
"Horas mais tarde", disse a reportagem, "nos recebemos um cheque correspondente a quantia completa, ao produzirmos um cartao de identidade, no Hotel Lisboa, o coracao do STDM, o casino central de Macau".
"Pago em dolares de Hong Kong, o cheque tinha o carimbo em portugues, apresentando a garantia da Sociedade de Jogos de Macau SA, uma subsidiaria da STDM que opera 12 casinos da companhia".
O cheque foi descontado numa agencia dum certo banco europeu em Hong Kong, pago em dinheiro vivo, tornando assim impossivel identificar o recipiente do dinheiro. Mais tarde, outro cheque foi aceito em outro banco em Hong Kong, sem que qualquer pergunta fosse feita, de acordo com a revista.
O jornal The Hong Kong Standard disse que sob leis chinesas, cidadaos que viajam para fora do pais nao podem levar mais do que US$5,800 com eles. Contudo, disse a reportagem, muitos podem ser vistos jogando com milhares de dolares nas mesas de jogo em Macau. Oficiais do governo central declararam que a cada ano, bilhoes de dolares saem da economia do pais via Hong Kong e Macau.
Chineses que depositam dinheiro dentro do pais para retira-los nos casinos de Macau, nao sao obrigados a participar de jogos de azar. Na verdade, segundo a reportagem, o dinheiro pode ser recebido do outro lado de tres maneiras faceis: dinheiro vivo para fazer compras, fichas para jogos de azar ou um cheque para transferencia facil para outro local.
Em sua maior parte, diz a historia, o sistema nao envolve a transferencia fisica de dinheiro, mas um sistema semelhante ao praticado pelos jornalistas.
A revista mencionou declaracoes dadas por oficiais do governo central que acompanham o movimento e a transferencia de dinheiro atraves duma rede de agentes e informantes trabalhando dentro dos casinos e em secreto. Eles disseram que pelo menos US$1 bilhao dos muitos bilhoes que entram em Macau e Hong Kong a cada ano e enviado ao estrangeiro, para a America do Norte, Europa ou Asia.
Parte do dinheiro, disse Review, e resultante de corrupcao, apesar de que oficiais nao dispoe de qualquer metodo pra calcular a quantia. Fundos remetidos ao estrangeiro, tipicamente sao investidos na compra de propriedades nos Estados Unidos e Canada com o proposito de preparar o terreno para a emigracao de familiares, segundo comentarios de oficiais chineses e da policia de Hong Kong.
A porta-voz de Ho, Janet Wong, recusou comentar sobre o assunto de lavagem de dinheiro, para essa historia.
A familia de Ho, incluindo a sua filha Pansy, a qual tem feito aplicacao para abrir um casino em Vancouver, quando o governo desta provincia estava sob a administracao de Glen Clark, esta tambem envolvida numa briga de familia que lanca luz nalgumas das operacoes do "rei" do jogo de azar.
Winnie Ho, uma das mulheres mais poderosas da Asia e irma de Stanley Ho, reclama que ele forcou-a a desistir da parte que ela controlava na operacao de casino em Macau e causou que ela perdesse milhoes de dolares, apos ela ter organizado toda a estrutura financeira da STDM em 1962.
Documentos entregues ao Review por Winnie Ho sustentam alegacoes de que ha participacao de Triads no casino de Ho atraves das Salas VIP as quais foram desenhadas inicialmente para permitir que pessoas endinheiradas pudessem jogar com privacidade e conforto. As Salas VIP, continua ela, provaram ser de grande sucesso para STDM e para Macau.
A historia tambem alega que a STDM tem uma lista de dividas das Salas VIP e em 2001 incluiu emprestimos feitos por varios criminosos e muitos outros identificados pela policia de Hong Kong e por funcionarios daquele governo central como sendo chefes de gangues presentes ou passadas ou pessoas ligadas ao crime organizado.
O controlo das Salas VIP iniciou uma guerra sanguinaria entre as gangues de Macau que eventualmente espirrou para dentro desta provincia canadiana (veja a nossa edicao anterior).
Documentos entregues por Winnie Ho tambem alegam que STDM tem historicamente funcionado temporariamente como um banco, apesar de nao ter nenhuma autorizacao de instituicao financeira ou de credito.
Ho negou todas as acusacoes feitas pela sua irma contra ele.
O "rei do casino", ao mesmo tempo que tem coneccoes e influencia em todo o mundo, nao tem ficado sempre distante de controversias.
Ho tentou ja muitas vezes, atraves das suas filhas Pansy e Daisy, fazer aplicacoes nas provincias canadianas de British Columbia, Alberta e Ontario.
Apos anular as aplicacoes, por razoes nao declaradas, mas apos submeter-se a analise de folha criminal, Ho conseguiu entrar no mundo dos casinos canadianos apos fazer alianca com um engenheiro de computadores da British Columbia que criou um casino virtual chamado DrHo.com
DrHo.com tem base em Antigua e opera com tecnologia desenhada pela firma de Vancouver Eyeball.com Network Inc.
Participantes jogam poker, blackjack, rouleta e muitos outros jogos em tempo real com operadores de verdade.
Especialistas do Crime Organizado Asiatico declararam ao Asian Pacific Post (jornal de Vancouver que produziu este artigo e publicou-o em ingles) que Ho e os seus associados ocupam varias listas classificadas no departamento de inteligencia.
"Estou certo de que os nossos politicos sabem de tudo isso, mas mesmo assim Ho ainda tem acesso directo a eles", declarou o especialista, adiantando ainda que o assunto ja foi ate discutido em reunioes do Parlamento.
Durante outro dos seus escandalos que causou a queda do Mercado de Accoes nas Filipinas, Ho comprou paginas de anuncios nos jornais de Manila para defender-se das alegacoes de que tivesse qualquer coneccoes com o crime organizado.
Essas alegacoes vieram dos arquivos do governo canadiano.
Nos anuncios Ho declarou ter feito "investimentos de grande porte" em Los Angeles, San Francisco, Vancouver, Calgary e Toronto.
"Eu tenho viajado livremente e recebido as boas vindas, incluindo Vancouver em 1977 quando eu recebi no meu hotel (Sutton Place) delegacoes vindas para a conferencia da APEC e aos Estados Unidos, quando me encontrei com o presidente Clinton", ele disse.
Quando dessa declaracao, Ho ja ocupava espaco em listas de arquivo secreto nos livros da National Security Register e da agencia de espionagem canadiana, Canadian Spy Agency--CSIS.
Nos Estados Unidos, uma reportagem preparada para o Departamento de Justica por Philip Baridon, listou Ho e mais 27 outras pessoas como tendo coneccao com o crime organizado e que se encontram numa lista de observacao das autoridades americanas. O nome de Ho, contudo, foi retirado da lista apos os seus advogados visitarem o Departamento de Justica.
Ao contrario do Canada ou dos Estados Unidos, Ho nunca conseguiu penetrar o sistema da Australia em razao do extenso arquivo que as forcas de seguranca daquele pais tem sobre a vida de Ho e seus associados.
Ho nao classifica a Australia como um "pais amigavel", de acordo com declaracoes feitas por um analista chines.
Ho falhou nas suas tentativas de conseguir uma licenca para abrir um casino na Australia.
A antiga New South Wales Gaming Licensing Board tem um relatorio sobre Stanley Ho carimbado com as palavras never to be released (pra nunca ser liberado). Os oficiais daquele departamento tem definido Ho como "individuo incapaz de adquirir licenca para operar casino."